Um dos pais fundadores de nossa disciplina, James Frazer, afirmava que a antropologia social trata-se de um dos ramos da sociologia que objetiva “um departamento particular daquele imenso campo de conhecimento” (FRAZER:2005:106), o que corresponderia ao estudo da “origem, ou melhor, das fases rudimentares, à infância e à meninice da sociedade humana”. Partindo desta orientação teórica, irei realizar o exercício de analise que se segue.
Apesar de o evolucionismo possuir uma unidade construída posteriormente ao trabalho de seus principais autores – ou seja, de escopo analítico permeado por disputas em relação a diversos pontos – pensarei essa escola como um todo, a partir de suas premissas e conceitos fundamentais.
Para este exercício, analisarei dados de um grupo que não podemos considerar “primitivo”, embora seja possível encontrar aspectos das “fases rudimentares” como nos orienta Frazer. Este grupo tem uma economia de mercado altamente desenvolvida, contudo em suas dinâmicas e rituais cotidianos pode-se perceber a sobrevivência[1] de aspectos da barbárie em seu processo evolutivo. Anteriormente pesquisado pelos professores Linton e Miner, respectivamente, os Nacirema vivem no norte da America num território fronteiriço ao dos Cree[2] no Canadá, e dos Yanqui e Tarahumare no México.
Partindo do pressuposto de que há um processo linear de evolução da humanidade, o qual parte de uma mesma e única natureza humana e que , segundo Morgan, pode ser descrito em períodos sucessivos: Selvageria, Barbárie e Civilização. Cada um destes períodos da evolução dos grupos humanos denota uma relação específica dos seres humanos entre si, e principalmente da relação com ambiente e do progresso das técnicas que transformam esse ambiente.
Os Nacirema desenvolveram uma variedade enorme de formas de se relacionar com o ambiente, essas formas vão desde instrumentos mais elaborados, com uma complexidade técnica ao atual resgate, embora com modificações, de técnicas rudimentares – ponto que ainda irei desenvolver. Os relatos de Miner já apontavam que característica do grupo é viver em casas de madeira, geralmente os mais pobres, os mais ricos, viverem em casas de alvenaria e, geralmente, com espaço dedicado aos santuários para ritos corporais. Miner, contudo não chegou a explorar as técnicas que esse grupo utiliza na construção de suas casas, bem como as recentes formas de morar (se assim podemos considerar) como a construção de casas grupais verticalizadas.
Essas novas construções são quase tão impressionantes quanto às pirâmides egípcias, sua altitude pode ser decorrente da crença mitológica de que quanto maior a concentração de pessoas em alguns centros, maiores são as dádivas, e assim quanto mais altas as casas grupais verticalizadas, mais parentelas ali habitam e, portanto, mais valorosas as dádivas. O caráter grupal dessas casas se dá pelo fato de várias famílias ali habitarem, não necessariamente há uma identificação por parte delas enquanto grupo identitário, o que geralmente acontece é que cada família se restringe ao seu espaço na imensa construção limitando suas relações ao interior familiar.
É inegável, se avaliarmos pelas técnicas de transformação do ambiente, bem como pelas técnicas de comunicação[3] que o status nos Nacirema, é de civilização. Bem como, colocando em outros termos, sua complexa forma de vida (Miner:1976) pode ser caracterizada enquanto cultura a partir da definição de Taylor na qual “cultura ou civilização, tomada em seu mais amplo sentido etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade” (TAYLOR:2005:74). Cultura seria uma das definições que não está clara para o evolucionismo cultural, visto que muitas vezes confunde-se ao conceito de civilização. Contudo é importante salientar que a cultura é compreendida no singular, embora haja uma diversidade de sociedades, elas estão em estágios diferentes da mesma cultura humana. Assim como a natureza humana, a cultura também é uma só – supostamente o centro do qual emana o conhecimento útil e relevante – contudo em diferentes estágios de civilização.
Nada acrescentamos ao conhecimento com a afirmação de que os Nacirema possuem alto grau de civilização, já que se trata de um truísmo, pois esta é a sociedade dos antropólogos evolucionistas e, portanto, parâmetro para comparação com todas as outras. Passemos agora para a aplicação do método comparativo no estudo de aspectos da vida dos Nacirema em relação a outra secção política entre os Nacirema (diferente dos evolucionistas que comparavam “selvagens” ou “primitivos” com sua própria civilização para justamente perceber e estabelecer escalas evolucionarias unilineares de progresso humano, vamos empreender a comparação no interior de uma mesma sociedade, mas entre “linhagens políticas” distintas). Propomo-nos levantar aqui apenas alguns traços do estágio de barbárie. Por exemplo, há entre os Nacirema aqueles que acreditam serem menos “humanos” os que habitam nessas casas grupais verticalizadas, devido ao distanciamento da terra. Os Atsigoloce[4] (ou Atsilatineibma, como é chamada esse segmento político) seriam resquícios de uma barbárie na sociedade Nacirema. Além de evocarem uma relação de proximidade com a terra (enquanto divindade), eles defendem que cada Nacirema deveria “voltar” a cultivar seus alimentos, em suas casas. Esse grupo se caracteriza também pelo vegetarianismo, o que poderia ser indicio de um status inferior de selvageria – a partir da classificação de Morgan. As técnicas de alteração do ambiente a partir da construção de suas casas também remontam ao status de barbárie, segundo a mesma classificação. Os Atsigoloce a partir de algo que chamam de bioconstrução (earthship), propõem a construção de casas menores, onde podemos observar a sobrevivência da utilização de tijolos de adobe. O que impressiona é que há também uma grande alteração nos santuários descritos por Miner, agora eles precisam de um espaço ainda maior. A pia batismal se mantém a mesma durante todo o ano, mas o restante da louça é utilizada durante seis meses, depois passa-se a usar outra, passados mais seis meses volta-se a usar a primeira[5].
Esta breve reflexão presta-se ao confronto de casos com os pressupostos e conceitos de escola evolucionista, contudo, acabamos apontando também para outros caminhos. A lei de progresso como formulada por Spencer, e apropriada por outros autores evolucionistas, implica em um progresso unilinear no qual “todas as sociedades conhecidas [progridem] segundo uma única escala evolutiva ascendente, através de vários estágios” (CASTRO:2005:26). Assim, embora tenhamos trazido alguns aspectos da cultura Nacirema enquanto sobrevivência de estágios de desenvolvimento diferentes, conforme a metodologia evolucionista, nossa analise comparativa no interior de uma sociedade (que tenderia a uma perspectiva mais boasiana, embora tenhamos efetuado as ressalvas) pode apontar, quicá, para uma idéia de cultura um pouco mais dinâmica e menos homogênea, na qual as disputas no campo do “saber fazer” informam inclusive transformações na ordem mitológica.
[1] Conforme afirma Castro (2003, p. 32): “O estudo científico das “sobrevivências” autorizava o antropólogo a recorrer, portanto, não apenas às sociedades “selvagens”, como também à sua própria sociedade. Tal procedimento ampliava enormemente o campo de investigação, permitindo que se incorporasse à antropologia aquilo que se costumava designar como ‘folclore’.”
[2] Sobre alguns aspectos desse grupo ver o trabalho do professor Tim Ingold, The perception of the environment, a partir da relação do caçador Cree com o Caribu o autor propõe uma outro perspectiva em relação a dicotomia natureza e cultura.
[3] Foi uma opção neste trabalho trabalhar apenas com as técnicas de moradia, deixando para um outro momento a avaliação e analise das formas de comunicação Nacirema, mas podemos aditar que o grupo utiliza instrumentos mágicos para comunicar-se em grandes distâncias e para transmitir imagens e mensagens textuais.
[4] Ecologistas ou Ambientalistas.
[5] Descrição do funcionamento de um banheiro seco.