21 de setembro de 2009
in memoriam meu pai (1965 – 2006)
Acabo de ler as informações e notas de solidariedade, uma em relação ao assassinato do sem-terra Elton, este fato me faz lembrar de outras assassinatos, mas principalmente das constante ações de violência e repressão dos Estados com o movimento social, com cada um a cada dia de trabalho das instituições publicas. Faz lembrar também dos sonhos e utopias (ao meu ver produtivas e necessárias) que a cada momento são pisoteadas pela violência institucional e inoperância do dito poder publico. Mas principalmente me faz lembrar a história de outro homem, meu pai, que morreu de forma violenta, antes mesmo de seu coração parar de bater.
Meu pai jovem em uma época paradoxal, em que conviviam as ideais de liberdade e profunda repressão, ainda muito cedo aos 20 poucos anos teve uma filha e foi coibido a casar. Por essa razão também cedo começou a trabalhar, seguindo seu pai, tornou-se bancário no Banco Meridional, com mais dois irmãos. Era uma pessoa muito competente, autodidata em tudo que lhe interessava , um apaixonado pelo saber. Ele então envolvido pela causa começou a militar no sindicato dos bancários, envolvendo-se com pessoas que lhe faziam crer que outro mundo realmente era possível. Porém as dificuldades na construção desse novo mundo começaram, repressão forte, marcas no corpo pela ação policial, brigas internas, uns passando a perna nos outros, mas ele mantinha a convicção de que com seus “amigos” busca algo melhor para todos. Muitas vezes penso nele como a velhinha de Taubaté. Os anos 90 chegaram, seus “amigos” assumiram cargos políticos e a luta sindical virou campanha eleitoral. Meu pai ainda participava das campanhas por acreditar naquela luta de “companheiros”. Então chegou o século XXI, com seus companheiros distantes, com a ruína de algo que ele acreditou e ajudou a construir, o Partido dos Trabalhadores, meu pai agora permanecia forte em sua luta, pois ainda terno com os companheiros, porém seu brilho seu brilho se transformava em lagrimas de decepção e sua paixão era desestabilizada por uma humanidade que só sabe “fazer morrer”.
Assim meu pai a cada dia morria, a cada noticia sobre o mundo, a cada reflexão sobre o que não foi construído, a cada companheiro falecido, perdido, sumido ou consumido por outros objetivos. E foi assim a tal ponto de não acreditar mais na possibilidade um outro mundo possível (ou de acreditar, não sei) e então agarrar-se na morte.
Digo que mataram meu pai, assim como matam a utopia ou esperança de cada um em todo momento que vemos o descompromisso, o descaso não só de governantes, mas do funcionários públicos que mantém instituições violentas, das pessoas em suas casas que então entregues ao “o que se a de fazer?!”, ao esquecimento de que todos fazemos parte do mesmo que ao invés do coletivo caminha para uma auto-predação. Mataram meu pai, mas não minha utopia que permanece a partir de sua memória.
Queria poder ter conhecido o teu pai… é uma pena como a história com algumas variações parece sempre se repetir com o melhor daquilo que somos, sendo sempre apagado.